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Mulheres da Vila #3 – Conheça Marcela de Genaro, a primeira assessora do Santos

Se atualmente ser mulher e trabalhar com futebol ainda causa estranheza, imagina no início dos anos 2000, onde ocupar lugares no mercado de trabalho era muito difícil. No entanto, apesar da dificuldade, lá em 2002, uma jovem de 20 anos aceitou o desafio e tornou-se a primeira assessora do Santos Futebol Clube, conheçam, Marcela De Genaro.

Marcela é jornalista, formada pela Universidade Católica de Santos, e foi assessora do Peixe de 2002 a 2005, onde pôde ver o nascimento da segunda geração de Meninos da Vila.

Eu não tinha a menor ideia de como isso iria marcar a minha vida, quantos desafios iria enfrentar, o quanto eu iria aprender e muito menos que iria acompanhar os bastidores de uma equipe fantástica em campo. Eu só tinha 20 anos e assisti ao nascimento da segunda geração dos Meninos da Vila, através dos olhos e opiniões de professores como José Ely Miranda, o Zito (vice-presidente de futebol da primeira geração 78/79), que não só acreditava em mim como me protegia, e Chico Formiga (técnico do time da primeira geração), que seguiam no clube fazendo o que é nossa marca: cuidar do celeiro de futuros grandes jogadores (…) O Santos agora tinha um site, abastecido por nós, com matérias que iam além do dia a dia e traziam, por exemplo, uma análise dos jogos da seleção feitas por nossos campeões mundiais; e a tarefa de colher essas informações era minha. Imagina falar com os craques citados acima e ligar para a enciclopédia Pepe, conversar com Edu e Clodoaldo sobre futebol? Me formei na melhor escola

Neste período, o Santos voltou a ser o Alvinegro Sagrado, de grandes conquistas, de relembrar e celebrar a sua história com o Museu das Conquistas, de jogos na Libertadores emocionantes, de tensões com negociações com Real Madrid. Eu tentei ser menos feminina como tática para tentar ser respeitada, passei por situações difíceis, ganhei experiência. Joguei baralho com o porteiro, bebi cerveja na esquina da Vila com Zeca Baleiro (e seu querido produtor Sérgio Castellani – que infelizmente faleceu há alguns dias -). Ganhei de presente DVD com “parabéns pelo título” do são paulino Nando Reis, pai da santista Sophia, entrevistei Lô Borges, do Clube da Esquina.  – contou Marcela

 

Marcela, Alberto, Walmir Lopes e Aldo Neto. (Foto:Arquivo Pessoal)

A segunda geração de Meninos da Vila ficou marcada não só pelo talento dos jovens atletas, mas também pela personalidade deles, o que causava inúmeras situações descontraídas.

“A primeira entrevista de Diego. Apesar de ser maduro para sua idade (se não me engano tinha 16, 17), na realidade era um garoto dando entrevista para uma estagiária inexperiente. E ele só falava de futebol e o perfil que meu chefe, Aldo Neto, tinha pedido, era algo como revista Teen, Querida, Capricho. Quando perguntei o que ele fazia nas horas vagas ele dizia: jogar futevôlei. Então eu disse:  “Fora futebol, do que você gosta?” Ele, tímido, puxou um sotaque de Ribeirão Preto e falou, sem jeito: “Ah, namorar, né?”.

Robinho tinha mania de roubar meus óculos escuros e uma vez ficou dançando usando eles, nada discretos (acho que era de armação roxa, enorme, com detalhes em dourado, muito brega), em frente à câmera da TV Tribuna (Globo) no CT.” – relembrou.

Marcela também teve a honra de conviver com ídolos do Santos em seu dia a dia, e presenciou momentos inesquecíveis como assistir um jogo ao lado do eterno capitão Zito e entrevistar o Rei Pelé.

“Assistir jogo ao lado do Zito e poder ver ele xingando o Robinho como xingava Pelé quando era capitão no nosso time bicampeão mundial, para que não se satisfizessem enquanto o time estava ganhando muito bem. (Conta-se de Zito a Pelé, durante jogo: “Quantos gols tu marcou? ”; “Dois”, respondia Pelé, por exemplo. E Zito emendava: “Vai, fdp, tem que marcar 3, 4… (…) Minha entrevista com Pelé. Ele estava distante do clube, mas não havia motivo que fizesse com que ele não se encantasse com os novos Meninos da Vila. Nessa época ele foi se reaproximando, aos poucos. Havia estado no mesmo ambiente que ele, mas nunca conversado. Um dia meu chefe vira e diz: “Marcela, desce e vai no vestiário. Pelé está gravando com a Record. Faz uma entrevista para o site”. Cheguei no vestiário bem mansinho, especialmente para não atrapalhar a entrevista. Quando vi uma brecha me aproximei e me apresentei. Aí o Pelé vira e diz: “Eu já te vi três vezes”. Brasil, era o Pelé falando isso pra mim! Consegui a entrevista enquanto andávamos em direção ao Didi, seu cabeleireiro até hoje” – contou.

Trabalhar com futebol é o sonho de quem é apaixonado pelo esporte. E Marcela aconselhou mulheres que desejam seguir essa área.

Eu hesitei diversas vezes antes de aceitar a oferta de ser contratada. Quem diria? Eu brincava: “eu não sei o que é um zagueiro”, por que me querem aqui? Pois bem, entendi que a função não seria ligada ao futebol, que iria assessorar outras categorias de esporte, trabalhar em eventos. Havia assessores homens para aquilo. Queriam uma mulher para “sorrir”, por assim dizer, mas isso não me satisfazia. Não estava alí para ser objeto de apreciação e sabe quem mais me mostrou isso? Os campeões mundiais que vestiram a camisa do Santos. Estavam alí, nos escritórios, na beira do campo, na arquibancada onde eu tive a honra de sentar para assistir jogos ao lado do Zito. Na época não se falava nem em assédio moral, muito menos sexual. Não tinha ideia como lidar com aquele ambiente tão masculino onde até “botijão de saia” atiçava os hormônios masculinos, mas não arrefeci. E não há de se negar, sim, haviam algumas mulheres fortes dentro do clube. Está aí o Memorial das Conquistas que teve a criação coordenada por Denise Covas, havia a secretária do presidente que era uma fortaleza, e se havia eu ali, era uma sinalização de que havia algum espaço para mulheres, ainda que não em cargos chave ou de chefia, diferente do futebol de hoje. 

Hoje há mais consciência sobre a nossa força e muita informação para macho que queira evoluir, acabando com a desculpa de que muitos cresceram aprendendo a ver mulher no papel frágil ou de objeto. Você pode passar por muita situação escrota, mas pode fazer melhor do que eu. Eu não fui nenhuma precursora, ouvi coisas que não gostei e não respondi, mas também não permiti abusos físicos. Estudem feminismo, busquem a igualdade, não abaixe a cabeça e muito cuidado para não serem manipuladas pelos senhores do dinheiro no futebol que rondam os clubes. Busquem uma referência, tenham uma amiga como ponto de segurança e go! “ – finalizou.

Estudante de jornalismo na Universidade Santa Cecília. Nascida no interior mas caiçara de coração, se mudou para viver seu amor pelo Santos de perto.

1 Comentário

1 Comentário

  1. ALEXANDRE CEOLIN

    20 de março de 2021 às 18:00

    Marcelinha de Genaro, uma das primeiras e mais queridas amigas que fiz na minha primeira passagem pelo Santos. Excelente profissional, ser humano e amiga. Matéria mais que merecida

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