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“Não existe nada que impeça qualquer clube de virar empresa” afirma Rodrigo Capelo

Rodrigo Capelo no ''Redação Sportv''

Fala rapaziada, peixada e moçada, tudo bom com vocês? Por aqui só estou aguardando o preço da carne baixar pra convidar o Holan para um churrasco e dizer pra ele que: LUIZ FELIPE NÃO DÁ, MANO.

Enfim… até lá, vamos falar um pouco sobre outras coisas que se passam no Reino do Futebol.

E, como essa gestão tem dado claras demonstrações de que o cofre está vazio e a caixa de correio está lotada de boletos, resolvemos bater um papo com Rodrigo Capelo, para tentar entender quais ações podem ser tomadas pelo Santos para melhorar esse cenário.

Anteriormente conversamos com o Cesar Grafietti e também falamos com “os 3 reis magos do Marketing Esportivo” que você pode conferir Aqui.

Essa entrevista foi feita antes de anunciarem o Master do Santos, por isso não foi abordado o assunto anteriormente.

Fiquem ligados no Meu Peixão que sempre teremos convidados para abordarmos todos os assuntos que envolvam o Santos, estaremos sempre aqui discutindo o tema de relevância pro clube e não o entrevistado.

Confere o papo ai…

MP: Na sua avaliação, analisando o aspecto financeiro, e o momento da pandemia, o Santos tomou as medidas corretas? Quais ações não foram tomadas e quais ainda podem ser tomadas?

RC: Maior parte das atitudes que o Santos tomou nessa gestão do José Carlos Peres, em especial no ano de 2020, a gente vai descobrir só com a publicação do balanço financeiro, que é quando vamos ter vários indicadores e várias explicações que vem nas próprias notas e explicativas pra saber o que o Santos fez. Superficialmente, com base na imprensa, a gente sabe que o Santos teve uma redução de salário de até 70% pra seus funcionários, jogadores, comissão técnica, e que no fim do ano ele conseguiu cumprir esse acordo. E é inevitável que tenha sido assim, porque quando a gente diz que o clube de futebol, ele arrecada muito, ele gasta tudo, no caso do Santos até gasta mais do que poderia. E, de repente, você tem o fluxo de receitas cortado, suspenso, com as competições parando, não tem outra saída, você tem que buscar crédito, empréstimo. Então, eu tenho a impressão de que o Santos se endividou e ele vai buscar acordo com credores, de dívidas passadas e também com as pessoas que estão recebendo salário hoje. Então, superficialmente, me parece que o Santos fez o que tinha que fazer. A gente vai saber mais detalhes com o balanço.

MP: Muito se discute no Brasil a transformação dos clubes em empresas, temos bons exemplos na Europa e nem tantos assim por aqui. O problema é o modelo? A legislação vigente no país?

RC: Não existe nada que impeça hoje qualquer clube de futebol de virar empresa, tanto é que o RED BULL Bragantino é uma empresa limitada, você não precisa mexer na legislação pra que o Clube Empresa possa acontecer. O que se diz muito é que você tem alguns desestímulos pra que o clube vire empresa. O principal deles é a questão tributária. Por quê? Uma associação civil sem fins lucrativos tem isenção de impostos total, por exemplo, no imposto de renda de pessoa jurídica e no na contribuição sobre o lucro líquido (CSLL), ela tem isenções parciais também no PIS e no COFINS. Que se aplicam sobre a folha salarial. Então se você virar empresa, você vai ter que pagar todos esses impostos. E pra quem tá querendo competir no mercado, ainda mais no mercado brasileiro, que é competitivo, tem ali um desnível. Então, muita gente não quer abrir empresa pra não pagar imposto. O que se fala, no congresso, no senado, na câmara, é encontrar maneiras de aliviar a parte tributária, para os clubes de futebol, pra facilitar transição.

A empresa é uma estrutura societária, pode ser limitada, pode ser sociedade anônima, você pode abrir capital na bolsa, para que qualquer um possa se tornar investidor, ou você pode, simplesmente, deixar na mão de donos particulares, privados, ou seja, você tem algumas coisas que só a empresa permite, como por exemplo, se você quiser vender 30% do Santos pra Nike, não dá, porque o Santos é uma associação, você não tem como vender uma parte de uma associação e isso é o que faz, por exemplo, o Bayern de Munique. Ele vendeu partes da empresa que ele que ele detém, partes de 8,3%, uma pra Adidas, uma pra Aliance, uma pra Audi. Então, quem quiser fazer um negócio parecido aqui, só sendo empresa. Agora, precisa tomar muito cuidado pra não cair. em falácia, do tipo, se você quiser ser campeão do mundial de clubes, tem que virar na empresa. Se você quiser ter uma boa administração, tem que virar na empresa. Futebol brasileiro só vai ter jeito quando tiver dono. Tudo isso é falácia, porque você não tem correlação entre a estrutura societária, resultado esportivo e a administração. Boa administração, ela é guiada por governança, organização, procedimentos internos, planos de metas e salários pros funcionários É isso, é gestão. E, você pode ter boa gestão dentro de uma associação, você pode ter má gestão numa empresa, que aliás, é o que sobra no Brasil.

MP: Qual sua impressão, quanto ao Comitê Gestor formado pelo Santos e presidido por Andrés Rueda.

Nesse time temos pessoas do mundo corporativo, do mercado de investimentos… Essa composição pode ser o que o clube precisa?

RC: Eu não conheço muito bem o Comitê Gestor do André Rueda então, não vou fazer comentários muito ousados. Só quero lembrar que em todos os bons casos de administração do futebol, você tem isso que você tá mencionando na sua pergunta. Que é ter pessoas capacitadas que venham do mercado, que sejam idôneas, geralmente elas são muito torcedoras, porque pra enfrentar a loucura do mercado do futebol tem que ser muito maluco pelo clube e elas aplicam um pouco do que elas conhecem ali. Principalmente no marketing, no financeiro, no jurídico, são áreas que em outras empresas existem, e existe muita muito conteúdo, existe muita formação acadêmica, existe muita preparação, muito curso técnico, muita experiência e você consegue trazer isso pro futebol com uma certa facilidade, ou, pelo menos, com menor dificuldade, já no departamento de futebol é onde a coisa desanda, por quê essas pessoas que vem do mercado, acabam frequentemente pensando mais como torcedoras, tomando decisões mais emocionais, do que racionais. Isso é um problema comum. Não estou dizendo que é o caso dos Santos ou da equipe do Rueda. Só estou dizendo que esse é um ponto em que todo mundo tem que ficar alerta. 

MP: Temos acompanhado uma curva onde os clube brasileiros ficam cada vez mais endividados e os jogadores cada vez mais ricos.

Corre o risco de haver uma bolha no futebol brasileiro? O Santos pode sair disso?

RC: A gente pode dizer hoje que o futebol brasileiro já está em colapso. Anos atrás com base nos balanços e no trabalho da parte financeira eu já tinha dito algumas vezes que o futebol brasileiro poderia entrar em colapso, que você tinha clubes em situações pré-falimentares ou palavras do tipo. Hoje em dia não. Já podemos afirmar que o futebol brasileiro está em colapso. Quando você olha, Cruzeiro, Vasco, Botafogo, todos na segunda divisão e sem perspectiva de volta fácil pra primeira, é um sinal. Quando você vê Goiás, Curitiba, clubes desse porte, tendo dificuldade financeira e esportiva também, é mais um sinal. Quando você vê que até mesmo o São Paulo, o Corinthians, o Internacional, o Santos, passando por problemas financeiros bem graves e que seriam graves, mesmo se não houvesse a questão do coronavírus, é mais um sinal. Então, não tenho dúvida. O nosso mercado já está em colapso. como é que se sai disso? Com algumas reformas estruturais que os nossos dirigentes insistem em não fazer, como, por exemplo, a implementação de um Fair Play financeiro para estimular a boa administração, pra limitar prejuízos, dívidas, coisas do tipo. Reformar o calendário, porque o calendário que a gente tem é ridículo, temos campeonatos estaduais que são produtos chatíssimos, muito ruins, que ocupa quatro meses do ano. Temos muita coisa pra fazer, muitas reformas estruturais, só que a cartolagem ainda não conseguiu achar o caminho e o mínimo de coesão entre eles pra conseguir dar início à esses processos. 

MP: Recentemente o presidente Andrés Rueda disse que a divida total do clube gira em torno de R$600/R$700 milhões. E a dívida de curto prazo na casa de R$180 milhões. Ele também disse que a venda de atletas se faz necessário. Esse tipo de ação isolada resolve o problema?

Quais outras ações conjuntas podem ser adotadas?

RC: Eu entendo o Rueda quando ele fala sobre venda de atleta, porque essa é basicamente a única saída que sobrou. Direito de transmissão, os contratos estão assinados até 2024, não vai ter um aumento no curtíssimo prazo. Vai ter uma negociação em 2022/2023, talvez tenha luvas, mas até pela própria configuração desse mercado de mídia, essa é a negociação mais difícil de prever o que pode acontecer, que a gente já teve nos últimos 30 anos. Patrocínios… é muito difícil de trazer patrocinador pro futebol já que a economia tem crise, as empresas estão em crise, o futebol é um ambiente que não é muito seguro pra investimento. Então, é uma linha de receita muito complicada. Bilheteria não pode, não tem público na arquibancada, associação não é suficiente, ninguém consegue gerar dinheiro suficiente pra fazer realmente diferença. O Grêmio, o Internacional são os melhores exemplos, ele tem lá seus faturamentos na casa de cinquenta, sessenta milhões com quadro social e é muito comparado a outros clubes. Ainda assim, em um orçamento de quatrocentos milhões, não é a maior parte. Então, o que que sobra? Vender jogador. Fazer o que o Santos fez com o Rodrigo, vender por R$170 milhões e usar bem o dinheiro. O problema é que o Santos até hoje não usou bem o dinheiro.

MP: O Santos estuda uma parceira para transformar a Vila Belmiro em uma arena.

As rendas oriundas dessa estrutura podem ajudar em qual grau de relevância?

RC: Eu não posso dizer que não vai acontecer, porque tudo pode acontecer. Agora, eu sou muito cético em relação a qualquer projeto que envolva uma reforma profunda e estrutural da Vila Belmiro, pra que ela seja totalmente reconfigurada e comece a ter virtudes que as novas arenas tem, a parte acústica, a proximidade do campo, a segurança da entrada e saída, o conforto na arquibancada. Acho difícil que isso vá acontecer. Por quê? Todos os estágios que a gente tem aqui no Brasil, dos mais recentes, aproximadamente quinze que foram reformados profundamente ou construídos pra Copa do Mundo ou não, todos eles passaram por problemas financeiros muito graves. Por isso, quando você pega um modelo de negócio de um estádio, a grande receita é a bilheteria e a bilheteria vai ficar com o clube. Duvido que o Santos vai querer colocar a bilheteria pra financiar a reforma, senão ele vai ter uma dificuldade na própria operação do futebol. Que outra receita tem dentro de um estádio? Camarote? Estacionamento? Bares? Restaurantes? Instalar uma academia lá dentro? Uma loja? Nenhuma dessas fontes de receita se provou até hoje grande suficiente pra que o negócio seja muito atrativo. Tem muita gente tentando fazer dinheiro, tem gente que já consegue fazer algum dinheiro, mas é pouco e é difícil. E aí, quando você fala que vai reformar um estádio, que isso vai custar, sei lá, 200/300 milhões de reais, no mínimo, quem vai fazer esse investimento? É por paixão ao clube? aí pode ser que aconteça. É pelo retorno financeiro que o negócio pode dar? Tem um ponto de interrogação muito grande e é por isso que eu mantenho meu ceticismo.

MP: Seria necessário mais do que uma gestão de 3 anos?

RC: Sem a menor dúvida, serão necessários mais do que três anos de uma gestão pra transformar um clube. O Flamengo levou de 2013 até 2019 para conseguir chegar onde chegou. O Grêmio levou de 2015 até 2019, o Palmeiras, 2013 até 2018, todos os clubes que passaram por grandes restruturações recentes e que tiveram sucesso, levaram seis, sete anos pra conseguir fazer o que tinham que fazer. Então é muito importante que a política do Santos esteja razoavelmente apaziguada, que exista oposição, é lógico, tem que ter, tem que fazer questionamento, tem que monitorar, tem que acompanhar, mas que tenha o mínimo de, paz e de racionalidade pra conseguir manter um presidente no cargo e dar a ele a tranquilidade pra trabalhar. Fazendo as coisas certas, que é poupar, reduzir gasto, ser mais eficiente, sobrar algum dinheirinho pra pagar dívida, são coisas muito difíceis de fazer, mas que enquanto não fizer… Passar por uns três anos muito difíceis e mais uns três consolidando aquela nova cultura, aquele novo trabalho, enquanto não fizer isso, vai continuar naquela rotina de ficar vendendo jogador da base desesperadamente pra pagar a conta do jantar. 

MP: Havendo uma gestão séria e austera, em quanto tempo, você acredita que o SFC possa equacionar sua atual dívida de R$ 650/700 milhões?

RC: É difícil dizer um número específico, cinco anos, seis anos, dez anos? É alguma coisa nessa margem. Ainda mais por quê o Santos tendo a dívida que tem, ela vai ficar mais clara, o tamanho, a natureza, quando sair o balanço financeiro, mas o Santos tendo a dívida que tem, é um clube que tem uma arrecadação baixa, e não tendo uma grande arrecadação, nem com televisão, nem com patrocínio, nem com sócio, nem com a bilheteria, é na transferência de atleta que ele consegue pontualmente compensar a desigualdade pra adversários diretos. Só que isso acontece só de vez em quando. Então, é muito difícil você dar um número pra dívida sem olhar pra receita, porque o primeiro passo pra qualquer reestruturação financeira é você ter dinheiro novo. Então, é difícil dizer um prazo, mas eu tenho certeza de que ele vai levar entre cinco e dez anos, dependendo das condições, de onde vem esse dinheiro novo e o trabalho que vai ser feito fora e dentro de campo.

MP: Onde vão chegar os clubes com essa crise, tendo que manter altos custos( salários,  manutenções,  ações, logística etc)

RC: Eles não vão falir porque como associações civis não tem falência. Mas eles vão virar zumbis. Eles existem, eventualmente jogam competições, mas já foram rebaixados da primeira divisão, às vezes até pra terceira divisão ou pra quarta. Não jogam mais competições nacionais. Isso já aconteceu com a portuguesa, isso já aconteceu com o América do Rio de Janeiro, isso já aconteceu com o Bangu. Vários clubes tradicionais que, no passado, já tiveram alguma relevância no cenário nacional, ninguém mais sabe deles. O Guarani, o Figueirense, são clubes que você já não tem mais perspectiva de solução, de volta, de recuperação. Esse é o fim do túnel para quem está fazendo administrações irresponsáveis e para quem tá se endividando além da conta.

MP: Até quando você acha que esse modelo paternalista com que o governo trata os clubes de futebol sobreviverá? Até quando a coisa pública será empregada em instituições cuja governança é no mínimo inconsequente?

E O FAIR PLAY DA CBF, SAI OU NÃO SAI?

RC: Eu adoraria dizer um prazo pra que a postura paternalista do Estado com o futebol acabasse, mas eu não tenho, e não tenho nem esperança de que isso vá acontecer, pra ser muito honesto. O futebol tem como patrocinador dessa história, o Governo, ou seja, todos nós, torcedores, não torcedores, pessoas que gostam, pessoas que não gostam, que assistem, que não assistem, todo mundo paga essa conta. Porque o Estado dá a isenção fiscal, ele reduz outros impostos. O clube não paga, o clube comete crime tributário, ninguém é preso, ninguém é cobrado, faz um, um REFIS, pega um desconto e repete. O Estado tem empresas estatais que frequentemente fazem patrocínios, colocam no clube de futebol. O Estado não tem um projeto esportivo para o país, então ele também não consegue enquadrar os clubes dentro de uma lógica. Falta tudo, falta absolutamente tudo. Eu não acho que isso vai mudar. Por quê? O Estado, ele é a união de todos nós, mas quem manda no estado são as pessoas que nós elegemos para nos representar. Deputados, senadores, o executivo, o judiciário, e são esses caras que frequentemente tão usando o futebol como ferramenta de populismo, de demagogia. Então, pra eles, não interessa tornar o mercado mais saudável e, principalmente, cortar esse vínculo entre estado e clube. Pra eles é o contrário. Pra eles, interessa servir os interesses dos dirigentes, facilitar o jogo, porque assim eles vão poder se vender pra população como salvadores da pátria que ajudaram a salvar o clube do coração. São várias as tentativas ao longo da história, alguns conseguem, outros não, mas até agora, aparecer alguém que resolva mudar essa lógica, eu não vi acontecer, não vi aparecer e não tenho essa esperança pra ser muito sincero.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Peixão.

Menino da Fila.

1 Comentário

1 Comentário

  1. OSIR GONCALVES GUIMARAES

    28 de março de 2021 às 15:04

    Cara esse tipo de comentário de jogador não é produtivo, ainda mais quando você faz tipo uma chamada pegadinha, diz que vai falar de empresa e passa a falar o que você pensa de um jogar, então muda o título dessa m… De opinião.

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