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Santista na Voz

Sim, eu entendo o Neymar, aliás se ele quiser ser amado só Santos é o destino

Foto: Robson Ventura-29.out.2011/Folhapress

Por: Ivan Belmudes

Diversas vezes refleti sobre qual o motivo de grande parte dos jornalistas esportivos se julgarem superiores moral e intelectualmente aos jogadores de futebol. Essa minha inquietação se tornou muito maior quando comecei a ver um certo ódio ao Neymar, antes mesmo de ele dar motivo para ter haters (parte do comportamento dele, muitas vezes vem também da certeza de ser vilão independentemente do que faça).

Antes de mais nada cabe me apresentar. Sou jornalista, professor de história e documentarista, tenho 33 anos, comecei no jornalismo aos 18 anos em 2007. Ou seja, pude, já trabalhando, presenciar o nascimento do fenômeno Neymar, de perto. Tentarei agora falar um pouco do que vi e vivenciei e dialogar com alguns momentos do agora “Adulto Ney”, mas prometo, tentarei ser o “menos chato possível”.

Quando Neymar surgiu no Santos em 2009, ele já era um jovem popstar na Região. Desde a geração de 2002 a imprensa local buscava quem seria o novo grande craque (que um dia foi o Robinho). Quando o menino foi filmado pelas primeiras vezes pela TV Tribuna, com narração do excelente Odinei Ribeiro todos sabiam que ele era diferente.

Pois bem, o sucesso seria inevitável, mas era curioso ver uma certa inveja de alguns colegas jornalistas com os quais conversava. Em conversas informais achavam um absurdo um moleque de 18 anos ganhar mais do que eles que fizeram faculdade e (em tese, de acordo com o pensamento deles) mereceriam mais sucesso.

Isso marca um pouco o pensamento tacanho da classe média brasileira. As injustiças sociais ao longo dos anos fizeram com que as classes mais abastadas tivessem condições de cursar uma universidade, isso já os colocariam num tom de superioridade com relação “aos demais”. Esse tipo de distorção diminuiu (isso é verdade) com os programas de acesso às universidades. Mas o preconceito, esse costuma permanecer por mais tempo.

Além disso, ao se tornar profissional e conforme avançava na carreira, Neymar passou de um menino retraído e tímido, para o perfil de um garoto mais confiante e capaz de se colocar, de mudar o cabelo, se vestir como quer e até mesmo de expressar suas ideias. É óbvio que cometeu excessos e erros, óbvio, mas lembrem, estamos falando de um jovem com menos de 20 anos, que passou a ser um popstar. Em 2010/11 Neymar realmente explodiu para o mundo do futebol.

Foi logo após a Libertadores que fui convidado para trabalhar numa das maiores emissoras do Brasil, em São Paulo. Lá comecei a sentir na pele, como São Paulo trata quem vem de fora. Não é uma cidade simples, costuma ser hostil, tive excelentes pessoas que me ajudaram muito no meu início, mas não vou mentir, a maior parte (principalmente dos que tinham idades parecidas com a minha) me tratou mal, com certa empáfia e superioridade.

Vamos lembrar que, principalmente nas grandes emissoras e veículos, a maior parte da redação é composta por pessoas que fazem parte da “elite intelectual paulistana”, para explicar o que seria isso: pessoas ricas, que sempre tiveram de tudo, estudaram nos melhores colégios e universidades, se conhecem entre eles, apesar de morarem numa metrópole gigante e obviamente, se acham melhores do que todo o resto. Porém adoram dizer que possuem responsabilidade social, que ajudam os mais necessitados, esses obviamente necessitam sempre colocar a diferença entre eles e os tais seres inferiores.

Ou seja, para você ser ajudado por eles, para fazer parte do clube (enquanto eles deixarem) precisa abaixar a cabeça. Mas como dizia minha bisavó, quanto mais você abaixa, mais teu c* aparece. Pois bem, obviamente eu jornalista santista, criado a vida inteira na perifa da Baixada Santista não fazia parte do clube dos iluminados. Senti na pele como funciona esse processo de exclusão, obviamente colegas na mesma situação que eu mas negros sofriam ainda mais (não tenho condições nem de mensurar). Mas sabe por que sofri? Porque nunca abaixei minha cabeça para ninguém. Nunca “me fiz de coitado” esperando ajuda, ou aceitei ser ridicularizado e minimizado.

É característica minha, parto para o confronto (e graças a Deus, muitas vezes consegui o que queria). Fiz esse breve preâmbulo para explicar mais um motivo para esse ódio dos jornalistas ao Neymar aumentar: Ele “não era o coitadinho”, ele tinha personalidade. Não era tímido, ele aparecia. E isso, caros amigos, soa como arrogância. “Quem ele pensa que é para ser assim?”. Pra piorar o Neymar sempre se vestiu e agiu como o moleque da periferia de Santos (mesmo sendo rico desde cedo), quando essa galera “bem nascida e culta” da elite que compõe a imprensa esportiva paulistana via o Neymar assim… Ah o ódio logo batia… O Neymar não tinha esse direito, para eles o jovem deveria ser “humilde”, “socialmente responsável”, “capaz de entender o seu papel”.

Curioso né? Os mesmos que dizem isso são contraditórios no seu modo de agir, cansei de ver jornalistas “ditos responsáveis” e muito “bem vistos” cometendo atos execráveis. E com uma diferença, eles foram criados com uma estrutura muito superior do que a maior parte dos jogadores de futebol. Não é justo você cobrar algo de um jovem que não foi ensinado como você foi. E tem mais: a maior parte das crianças no Brasil não recebem a educação adequada justamente porque o abismo social da exploração imposta por famílias ricas gerou essa diferença.

Ou seja, o abismo social muitas vezes criado pelos privilégios “desses iluminados”, um exemplo? Muitos, apesar de ricos estudaram na USP, tirando as vagas de jovens de escolas públicas.

Voltando ao Neymar, eles odeiam o Neymar por alguns motivos: pois ele não é o que eles querem que ele seja; porque ele ascendeu socialmente através do futebol; porque ele fez meninos que se vestem como ele serem “galãs” das menininhas e por verem que os filhos deles passaram a idolatrar o jovem craque.
Aí vem o ponto importante, o Neymar não é produto de São Paulo, do chamado (trio de ferro). E nesse momento caro leitor, vou fazer uma confissão do que vi em redações: O SANTOS INCOMODA!

Fico as vezes pensando na possível volta do Neymar para o Brasil, se ele quiser ser amado pelos detratores basta vir ao Flamengo, ou Palmeiras, será escrita uma história de redenção, um roteiro que amam.

Mas se ele chutar a lógica e voltar ao Santos, nós voltaremos a ser felizes, amaremos o craque, como sempre amamos e ele será odiado pelos mesmos que sempre odiaram quem não se sujeita aos critérios e regras de dominação.

Neymar, só os santistas lhe entendem, se quiser voltar a ser feliz volte pra Santos como todo santista faz.

 

(jornalista com 15 anos de profissão, passagens por Record, SBT e TV Cultura, além de sócio torcedor do Santos e fanático pelo Peixe – Twitter: @Don_Belmudes)

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