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Sereias da Vila

Exclusivo: Chris Lessa quebra o silêncio e conta tudo sobre sua saída do comando das Sereias

Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC

O Santos anunciou por meio de suas redes sociais, a saída da técnica Christiane Lessa do comando das Sereias da Vila, no dia 9. Lessa havia assumido a equipe feminina do Peixe em 25 de janeiro deste ano e deixou as Sereias na terceira colocação do Campeonato Brasileiro Feminino, invictas em clássicos e já classificadas para a próxima fase da competição com três rodadas de antecedência.

Segundo nota publicado pela assessoria do Santos, a “Coach” pediu demissão e ambas as partes chegaram a um acordo. No entanto, os motivos que culminaram a saída da técnica ainda eram desconhecidos. Chris quebrou o silêncio e falou com o Meu Peixão sobre as especulações que aconteceram pós saída, confira.

 


Bom relacionamento com diretoria e comitê gestor

Alguns veículos de comunicação chegaram a publicar que um dos motivos da saída de Lessa seria um mau relacionamento com a diretoria, no entanto a treinadora disse o contrário, que nunca teve problema com ninguém da diretoria do clube. “O presidente me recebeu super bem e o Quaresma foi lá quando assinei o contrato. O Santos é um clube com várias categorias e o feminino é uma delas, que é profissional a vários anos, eles colocaram um diretor encarregado pelo futebol feminino que era muito presente. Minha relação com eles era muito boa. Claro que tem coisas que não concordo, que quero mudar pra ontem, esse é meu jeito, muito apressada mesmo, tanto que falei quando cheguei que a torcida podia me cobrar resultados, e a gente entregou resultado. (…) A equipe teve várias lesões e nunca usei nada como desculpa, nunca tive problema nenhum com ninguém da diretoria do Santos”.

 


Convivência excelente com as capitãs da equipe

Lessa e Cristiane conversando durante treino. Foto: Divulgação/Pedro Ernesto Guerra Azevedo, Santos FC.



Na vitória do Santos contra o São José, por 2 a 0, foi observado um desentendimento entre a técnica e a Cristiane, onde especularam que a convivência entre elas não era boa e um dos motivos seria a pouca diferença de idade de ambas. No entanto, segundo a Coach, elas possuíam um excelente relacionamento, e a idade não era um fator negativo. “Meu relacionamento com a Cris era maravilhoso, por isso coloquei ela como capitã, porque sei que ela podia me cobrar e eu podia cobrar ela, não tinha papinho, ela tinha liberdade pra falar e fazer o que queria, respeito muito ela e sua história, por isso a nomeei como capitã, ela, Rita e Thaisinha. Quando a Cris não podia, a Rita era capitã e a Thaisinha ‘tá’ voltando de uma lesão séria. Desde o primeiro treino tive conversas com a Cris, como por exemplo, intensidade do jogo, que se você fala para qualquer jogadora normal ela vai rebater. Nunca tive problema com a Cris, ela sempre foi uma voz das meninas, sempre tentou mediar tudo, ela é maravilhosa, não tenho uma reclamação, me despedi dela, falei que faria tudo de novo e amei trabalhar com ela. Aqui no Brasil realmente a mentalidade é muito diferente, mas no Santos não pode ser de uma maneira e em outros clubes outra; não existe isso de idade, trabalhei com a Carli Lloyd lá nos EUA, uma mulher que tem 39 anos, capitã da Seleção Americana e confrontava muito mais que a Cris, elas são muito inteligentes, querem saber a tática, o porquê tem que se movimentar e não querem ter que fazer a mesma coisa que elas faziam há 20 anos atrás. (…) Comecei a ser treinadora com 18 anos, e quando cheguei nos EUA eu era treinadora de meninos de 16, 17 anos. Idade é só um número, o que conta é sua experiência, como você passa ela e se a pessoa aceita”.

 

 

Convívio tranquilo com auxiliar Fabi Guedes e transparência com o elenco

Fabi e Chris durante treino das Sereias. Foto: Divulgação/Pedro Ernesto Guerra Azevedo, Santos FC.


Após a Coach pedir demissão, a auxiliar Fabi Guedes assumiu a equipe das Sereias, porém, diziam que quando a relação entre Lessa e o elenco começou a se estreitar, Fabi comandava parte dos treinos, mas isso não passará de mais uma informação errada sobre os motivos que resultaram em sua saída do clube. “Isso é mentira, sempre tentei colocá-la para participar bastante e ajudá-la a estar preparada, pra momento de Covid e etc… Sempre fizemos tudo juntas e claro que eu era técnica, a líder, sim, a chefe e tinha que tomar decisões. A responsabilidade sempre vai ser toda do chefe, líder, querendo ou não e tinha coisas que eu pegava pra minha responsabilidade. A gente se desentendeu uma vez só, sobre uma escalação, em relação ela não concordar sobre uma jogadora, e a gente só falou “tudo bem, entendi sua visão”, mas nunca tive problema com a Fabi e nunca tive que pedir pra ela dar treino. Sempre falei desde o começo se eu não fosse ajudar ia sair, sempre tive essa conversa com as jogadoras. Enquanto estivesse funcionando estaria ali, e quando eu visse que não podia mais ajudar, elas teriam todo direito de não querer trabalhar comigo e eu não querer trabalhar com elas. Isso é o mais importante”.

 


Não houve exposição das atletas da base

Três dias antes de Lessa pedir demissão, as Sereias foram derrotadas pelo Avaí Kindermann, fora de casa, por 2 a 1. Houve relatos de que a técnica havia criticado a atuação das atletas que eram da base durante o jogo, porém, as críticas eram somente cobranças, não houve exposição e falta de respeito com as jogadoras. “Criticar é uma coisa muito forte, coisa que o treinador fala ‘volta pra trás, não tira essa bola, antecipa lateral…’ acho que no Brasil isso deve ser crítica, não sei e tudo as pessoas falam ‘aqui no Brasil é diferente’, não aguento mais escutar isso, apesar de ser verdade. Agora, falar que uma jogadora é ruim, horrível, como ouço vários treinadores desses clubes do campeonato brasileiro xingando as atletas, eu nunca falei isso. Se eu fosse colocar jogadora pra criticar eu nem colocava, as pessoas falam o que querem, interpretam do jeito que querem e estão acostumada com outra coisa”.

 


Razão do pedido de rescisão

Lessa não fez muitas exigências quando aceitou treinar a equipe feminina do Santos, e a comissão técnica não foi montada pela treinadora, então, a Coach teve que lidar com pessoas que ela não conhecia, e o motivo real que a fez pedir demissão foi um grave desentendimento com um integrante que compõe a comissão técnica. “Tenho a consciência de vários erros que cometi antes de aceitar a proposta que o Quaresma fez. No primeiro dia de treino já vi que não seria fácil, nem com as jogadoras e nem com a comissão. Muita desconfiança deles, minha maneira intensa e motivadora e estratégica não foi muito bem aceita. Fui tratada como uma gringa. Era questionada em tudo. A comissão não foi formada por mim, e esse foi meu erro número um; vim trabalhar em um clube como o Santos, enorme, e meu único pedido foi sobre meu salário, pois tinha tido uma experiência difícil com a pandemia no Foz Cataratas, que ficou sem me pagar por três meses. Antes do jogo contra o Bahia, fui intimada pelo treinador de goleiras, veio pra cima de mim me bater, se não tivessem separado não sei o que teria sido, não fui e nem vou a polícia pelo mesmo motivo que muita gente não vai. Ele fazia minha caveira desde o primeiro dia, sempre falou em voz alta que não concordava e nem gostava de mim. Daí o relacionamento com todos e todas piorou. Eu me senti desrespeitada, vou deixar detalhes sem comentar, pois iria expor pessoas e não faço isso, mas já sai do jogo contra o Bahia, mesmo com a vitória, sabendo que não tinha mais como me relacionar com as meninas, não tinha respaldo, e vi que estava completamente sozinha. Muita gente não ficou do meu lado, tudo bem, muita gente não ficou do meu lado nas horas que era o certo, por medo, eu também teria esse medo! Apesar de várias coisinhas, não ter sido respaldada por ninguém me deixou sem opção. Após a reunião pós-jogo contra o Avaí, conversei com as meninas e como eu sempre disse desde o começo, se eu não tenho como ajudar ou o grupo não aceita a ajuda da minha maneira – chefe, pois não consigo ver um líder sem ser o chefe, mesmo paizão e mãezona, nem os nossos pais passam a mão na nossa cabeça -, que eu sairia, e foi isso! Não me arrependo de nada tático, técnico, psicológico e físico que tenha trabalhado, faria tudo de novo. Falaria tudo que falei de novo, meu intuito sempre foi ganhar, preparando sempre as atletas mentalmente para todas as batalhas. Mas a maior lição que levo comigo será de não querer tanto uma coisa, mostrar meu trabalho e experiência no Brasil e não questionar pelo menos com quem irei trabalhar e o porquê, porque depois que você muda toda sua estrutura de país fica mais difícil e mais tarde. Sou cegamente apaixonada por ser uma treinadora de futebol, mas depois dessa experiência, irei pensar bastante antes de aceitar alguma coisa”.

 


Relacionamento com Supervisora e Coordenador de Futebol

Apesar do ocorrido, a treinadora possuía um excelente relacionamento com a Supervisora, Aline Xavier, e com o Coordenador de Futebol, Amauri Nascimento. “O Amauri conheci quando cheguei aqui e estou saindo melhor do que entrei com ele, um amor de pessoa. Conversamos bastante ao longo do tempo e ele me mostrou como tudo funcionava, apesar de não concordar com algumas coisas aprendi muito com ele, é um homem de palavra (…) queria acrescentar que sou apaixonada pelo jeito que fui tratada pela Aline Xavier, ela simplesmente é fenomenal, MERECE TODO RECONHECIMENTO, me ajudou muito, me segurou bastante, me respeitou de todas as formas possíveis, confiou muito no meu trabalho sem questionamento e vibrou com a minha postura de liderar pelo menos no começo. Não tenho amizade com ela fora do Santos e não me comuniquei com ela depois que sai, mas torço muito por ela. Ajudou muito com a negociação da Sole que não foi nada fácil, ela e eu acreditávamos até o fim que conseguiríamos assinar a Sole, que diga se de passagem é um espetáculo de jogadora”.

 

 

Lessa não teve problemas com comissão técnica anteriormente

Na última temporada, Lessa voltou ao Brasil após 20 anos e comandou a equipe do Foz Cataratas, que estava disputando a Série A-2 do Campeonato Brasileiro Feminino. E apesar dos desafios, não teve problemas com a comissão técnica de lá. “No Foz Cataratas com todos os desafios, chorei muito por ter que sair de lá e voltar pros EUA. fui muito bem recebida lá. E em relação a trabalhar, tive uma comissão grande, trabalhei com sete auxiliares na China, incluindo preparador de goleiras, fisio, preparador físico, analista… E nunca tive problema nenhum com comissão técnica, até essa passagem pelo Santos”.

 


Elogios ao apoio da torcida e despedida do time

Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC


Assim que o Santos anunciou a contratação da técnica, houve muitos comentários positivos sobre sua vinda, devido a seu excelente currículo, experiência e ter uma postura de cobrança, algo que não havia na temporada passada, e isso foi algo que cativou a treinadora. “Quando cheguei aqui, primeiro treino, reunião, primeiro contato com diretoria e jogadoras, todos falavam que não tinha cobrança ano passado, vibraram que eu cobrava e queria que elas fossem as melhores, então isso é um dos legados que deixo, graças a Deus. A torcida do Santos é uma torcida maravilhosa, nesses 20 anos de carreira eu nunca me senti tão bem em um time em relação a torcida e jornalistas, que sempre estão fazendo um trabalho para que o futebol feminino se desenvolvesse e as pessoas se interessassem, não pra que houvesse briga ou desafetos, como vejo no masculino em outros lugares”.

Lessa contou os legados que deixa no time e quais foram os desafios encontrados durante essa trajetória. “O maior legado é independente do desafio nunca desistir, a gente teve muitos desafios, três semanas sem treinar, muitas coisas que nem as jogadoras sabem, torcedores, diretores, coisas que a gente resolve e não tem controle sobre. Comandei uma comissão técnica que eu não trouxe, e abri as portas para as mulheres integrarem, para a Fabiana que eu não conhecia, foi indicação, uma pessoa que não tinha experiência, tinha sido auxiliar pouco tempo no Audax, mas que conhecia muitas jogadoras, já jogou, tem um nível futebolístico muito bom e pensa muito parecido comigo. Outro legado foi ter aceitado a comissão do jeito que eu vim, confiado e achado que ia dar tudo certo. Fui muito a favor da contratação da Sole, briguei muito para que ela fosse contratada pelo Santos, Aline Xavi foi maravilhosa, fez de tudo pra ajudar. E o legado maior é isso, quando você, sendo treinadora de um dos melhores times do Brasil, sabe que ganhar é a única hipótese. Então, saio daqui com a cabeça erguida e faria tudo de novo, só que eu não viria pro Santos com tanta pressa, só reivindiquei uma coisa e infelizmente esqueci e não me preocupei em reivindicar quem ia trabalhar comigo, se iam confiar no meu trabalho, se iam me ajudar ou me atrapalhar. Então isso é culpa minha, ninguém tem culpa quem estava louca pra vir ao Brasil então a responsabilidade é toda minha de ter dado certo ou não” – finalizou a treinadora.

 

Em contato com o clube, este emitiu o seguinte comunicado sobre os relatos de ameaças sofridas:

“Diante das denúncias apresentadas na imprensa pela ex-técnica das Sereias da Vila Chris Lessa, o Santos FC informa que abriu procedimento interno de inquérito e sindicância para apurar os fatos relatados. Se constatada alguma irregularidade, o Clube tomará as medidas cabíveis contra os infratores. O Santos FC ressalta que a ex-treinadora jamais procurou a direção do Clube para tratar do assunto denunciado”.

 

Por fim, o portal Meu Peixão espera que o clube apure os fatos narrados por Chris Lessa acerca das ameaças sofridas, pois são de extrema gravidade.

Estudante de jornalismo na Universidade Santa Cecília. Nascida no interior mas caiçara de coração, se mudou para viver seu amor pelo Santos de perto.

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